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Uma flor

por MC, em 31.01.16

A D. Dália é uma senhora de personalidade forte, esperta que nem um alho, nas suas próprias palavras. À D. Dália ninguém faz o ninho atrás da orelha. É daquele tipo de pessoas que é muito difícil de enganar, que tem sempre uma opinião firme sobre as coisas (todas as coisas) e que não tem qualquer pejo em as expressar, seja onde for, seja a quem for, porque a frontalidade é uma das suas maiores virtudes. 

 

A D. Dália não tem muita instrução, pelas mais variadas razões lá da sua vida, mas faz questão absoluta de que isso não a iniba em nada. Pelo contrário, a universidade da vida, como costuma referir, tem-lhe dado todas as ferramentas de que necessita para percorrer o seu caminho com muito sucesso. A par da humildade com que foi abençoada, a D. Dália é uma senhora muito orgulhosa da sua maneira de ser e nunca permitiu – nunca – que descartassem ou menosprezassem a sua opinião com base na sua impreparação (ou em qualquer outro fundamento, diga-se a bem da verdade). Mais, está firmemente convencida que tem tanto direito a opinar como qualquer um e não admite a ninguém que ponha em causa esse direito, elle est charlie, ora essa, foi para isso que fizemos o vinte cinco de abril, afirma com frequência, o plural ‘fizemos’ a estufar-lhe o peito.

 

A D. Dália tem perfeita noção que carregará eternamente a cruz de não ser compreendida ou apreciada pela maioria das pessoas. Sabe muito bem que, a maior parte das vezes, os outros, estúpidos como são, confundem a sua intuitiva sabedoria de mulher humilde do povo com ignorância, tacanhez e atrevimento. Mas não faz mal. Ela sabe que tem (sempre) razão e essa fé inabalável proporciona-lhe a força intrínseca de continuar a brindar os outros com as suas inesgotáveis pérolas de sabedoria. Faz amiúde reparos observadores e sagazes em relação à vida das outras pessoas, percebe nas pequenas coisas irregularidades passíveis de investigação policial, suspeita de como vivem na incongruente abundância sem verdadeiramente trabalharem para isso, de como parecem indecorosas as suas rotinas, de como se orientam obscuramente em benesses injustificadas.

 

A D. Dália reconhece a milhas a esperteza saloia de todos os que pensam enganá-la, sabe lindamente como contorná-la e isso traz-lhe uma imensurável felicidade. Por exemplo, costuma celebrar com uma portentosa bola de berlim na pastelaria da esquina a sua consulta médica mensal, onde um chico-esperto, só porque é doutor, acha por bem amedrontá-la com os níveis dos açúcares e dos trinãoseiquê e as maldosas profecias dos achaques dos velhos. Tá bem, tá. No supermercado, compra sempre duas tabletes de chocolate. Uma para si própria, que partilha generosamente com o seu Pantufa, apesar do imbecil de veterinário lhe afirmar categoricamente que os cães não podem comer chocolate, porque o seu organismo não processa nãoseiquê. A outra, esconde-a ardilosamente debaixo da almofada do neto, quando o sabe de castigo e impedido do desfrute de quaisquer guloseimas. Sabe lá aquela parvalhona da nora como se educam crianças. Sempre a embirrar com o miúdo por conta dos palermas dos professores.

 

Ah, se a D. Dália mandasse, outro galo cantaria e o mundo seria certamente um lugar melhor.

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publicado às 18:52

Estendais antigos

por MC, em 29.01.16

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publicado às 22:10

Misplaced wisdom

por MC, em 26.01.16

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publicado às 22:01

Segunda-feira

por MC, em 24.01.16

Os olhos abriram-se de repente, como uma mola pontual. Percorreram o espaço mergulhado na penumbra com familiaridade, fixando-se por instantes no recorte azulado da janela, por onde entrava, oblíqua, a luz do candeeiro da rua. Os dígitos luminosos do relógio marcavam as seis e quarenta e cinco. Encolheu-se com um gemido desanimado, arrastando os cobertores até ao nariz. Ao seu lado, um vulto difuso respirava pesadamente e emanava um calorzinho aconchegante e irresistível.

“Mãe”, sussurrou e insistiu, abanando-a com suavidade, “mãe, já está na hora de levantar”. Um sussurro descontente  impeliu-a a continuar, agora com alguma impaciência. “Estás a ouvir, mãe? Está na hora de ir para a escola! Tens de levar-me à escola, mãe, acorda lá!”

Um grunhido zangado acompanhou uma reviravolta impetuosa do corpo ao seu lado. Algures naquele movimento de rotação, o rosto da mãe soergueu-se ligeiramente e ralhou murmúrios incompreensíveis, voltando a afundar-se pesadamente na almofada. “Chegaste muito tarde, não foi?”, questionou abespinhada. “Nem te ouvi chegar, deviam ser umas lindas horas”, continuou, como se fora ela a mãe, a admoestar a filha prevaricadora, de novo mergulhada no peso letárgico do sono.

Contrariou o ímpeto de se enroscar e voltar a dormir, afastou os cobertores e, num impulso de grandiosa bravura, saltitou, descalça e arrepiada, a caminho da casa de banho. Olhou para a banheira mas recuou como um autómato, logo que se lembrou que ainda não havia gás. A água gelada da torneira golpeou-lhe as faces e arrepanhou-lhe a pele. Com as mãos arroxeadas do frio, tacteou a cadeira velha de palhinha, procurando na montanha desengonçada de roupas a camisola azul escura de que tanto gostava. Vestiu-se rapidamente na penumbra e pegou na mochila da escola. O seu olhar vagueou pela cozinha minúscula, à procura de mantimentos. Do pacote de leite aberto no frigorífico volteava um cheiro acre e nauseante que a agoniou. Uma caixa plástica com massa cozida fazia companhia ao leite na imensidão gelada e vazia das prateleiras. Encolheu os ombros, resignada, e abandonou a demanda.

Voltou ao quarto para resgatar da mesa-de-cabeceira um pacote de bolachas quase vazio e seguiu, apressada. Estacou à porta e hesitou, rodando sobre si própria. Abeirou-se da cama, onde a mãe dormia, o cabelo escuro derramado na almofada, o rosto branco de panda, a maquilhagem escura esborratada à volta dos olhos. Debruçou-se sobre ela com cuidado e puxou meigamente os cobertores, aconchegando-a com desvelo. Depois saiu rapidamente de casa e o vento gélido da madrugada vergastou-lhe a cara e as mãos e impôs-lhe passo de corrida, rua fora, até à outra ponta do bairro.

 

 

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publicado às 17:46

Cúmulo da ironia

por MC, em 19.01.16

Que o candidato se chame Tino.

Ter, neste caso, seria bastante mais relevante do que ser. 

 

 

(Idem para a maioria dos restantes). 

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publicado às 21:46

Happy hour

por MC, em 14.01.16

Sentada à janela a apanhar o solinho morno de fim de dia, a menina Isabelinha folheava, sem olhar, a revista de eventos sociais que tanto apreciava. A menina Isabelinha considerava que o fim do dia à sua janela era infinitamente melhor do que as vidas esfusiantes das celebridades. Deslumbrava-a o fervilhar da sua rua.

As crianças a regressar da escola, coladas à passada impaciente das mães, as mochilas obesas a deslizar pelas costas. Os vizinhos velhotes, a quem ninguém punha os olhos desde a excursão matinal ao centro de saúde, parecem experimentar agora um inusitado prazer em visitar a mercearia do Sr. Abílio, onde acorrem em magotes vagarosos, como se convocados telepaticamente por uma misteriosa força superior.

As mãos bonitas das mulheres correm, hábeis, a colher dos estendais a roupa que penduraram antes da labuta. As conversas saltam de janela para janela, de um prédio para o outro. Sabem-se notícias dos doentes, tecem-se críticas às condições atmosféricas, avalia-se o grau de humidade das toalhas turcas e elabora-se sobre a carestia da vida. A rua enche-se de vozes que pairam entre os prédios como pássaros e que transportam consigo reflexões filosóficas acerca dos insondáveis mistérios da vida em geral e da dos vizinhos em particular.

O senhor coronel Lacerda, do quarto esquerdo, já desceu ao átrio para verificar a caixa do correio, hábito diário que, estranha e invariavelmente, coincide - mais minuto menos minuto - com a chegada da Shirlei, a brasileira colorida da tabacaria, a quem o senhor coronel atira um sorriso sonso, logo seguido de um pestanejar baboso que a escolta ao longo do primeiro lanço de escadas como a gosma de uma caracoleta.

A menina Isabelinha nunca viveu noutro sítio. É daquele primeiro andar alto e soalheiro que observa, com requintes de fã obsessiva, o pulsar único da sua rua. Às vezes, quando o calor e a tardança do estio o justificam, a menina Isabelinha vai buscar uma cerveja fresquinha e um pires de tremoços e para ali fica, consoladinha, como uma espectadora assídua e incansável de um musical arrevesado mas bem produzido que resiste à erosão dos anos.

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publicado às 19:38

Treta

por MC, em 12.01.16

A box quinou. Outra vez. Todos os programitas que gravei para degustar calmamente num dia solitário de chuva marcharam, quais escravos egípcios, a enterrar com ela. Outra vez. Toma e embrulha. Bem sei que a alegoria é rudimentar e manhosa, mas quem nos manda, a nós, pessoas de espírito simples, abraçar conceitos vagos e não fundamentados sobre a existência de amanhãs prazenteiros? :(

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publicado às 22:36

Estendais antigos

por MC, em 11.01.16

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Rua do Vigário 

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publicado às 21:37

Onde andas tu agora, Paulo Gonzo?

por MC, em 07.01.16

 

A sala de espera é cinzenta e sombria. Tem aquele tom pardo e difuso do horizonte em dias de chuva e não se consegue definir em que altura o cinza da tinta se mistura com o encardido das paredes. Cheira a febre e a vómito. As cadeiras de plástico que não estão estropiadas estão todas ocupadas. Um coro desarrumado de tosses, choros e queixumes impacientes amplia os males de cada um naquela plateia forçada.

O bebé dormita no seu ombro, a cabecita aninhada na curva do pescoço, quebrado de sono e de febre. Ajeita-o suavemente e escuta o chiado do peito. Ao amparar-lhe as costas sente na mão o rendilhado irregular da respiração. Com a outra mão, acaricia gentilmente a cabeça do mais velho, que repousa na sua perna, e aconchega o corpo pequenino, enrolado na cadeira ao seu lado.   

Fecha os olhos e procura dentro de si um reduto de calma, tenta resguardar-se da impaciência queixosa que sente nos gestos e nas vozes que a rodeiam. Numa televisão fixa lá no alto, quase no tecto, um canal de coisas antigas passa um programa musical com grandes êxitos do passado.

A voz cava do cantor romântico entoa em surdina e ferra-lhe no peito, à má-fila, a dor fininha da nostalgia. Cada um daqueles versos, - “sei de cor cada traço do teu rosto, do teu olhar”- mil vezes repetidos, transporta-a para o universo longínquo da sua juventude, tão desfasado agora da realidade que lhe parece terem passado mil anos, como num sortilégio de conto infantil.

Cada palavra cantada acirra-lhe a memória com imagens antigas, dos seus tempos de saltimbanca, dos sítios onde viveu - com a mãe e com o pai, com a mãe apenas, com a mãe e a avó, com o pai, com o pai e a madrasta, com o pai e outra madrasta, com a mãe e o padrasto - num eterno e extenuante acartar de bagagens e sonhos, à mercê de vontades e interesses que nunca eram os dela.

Nesses tempos, sentada sozinha à janela – gostava muito de se sentar à janela, qualquer janela, onde quer que estivesse – ouvia canções de amor e pensava que um dia, quando fosse crescida, iria fazer diferente. Tudo diferente. Iria procurar um amor assim, como o da canção. Um amor forte, indestrutível, onde cada um adivinhasse o outro – “cada sombra da tua voz e cada silêncio, cada gesto que tu faças, meu amor sei-te de cor” – um amor tricotado com cuidado e intimidade, um casulo de atenção e mimo tecido com linhas suaves mas fortes, que os resguardasse dos rigores do mundo.  

A primeira vez que encontrou um amor, teve a certeza que era o tal. Era tudo o que sempre sonhara: calado e meigo, bonito, de grandes olhos tristes, desde que se conheceram nunca mais a largara. Nenhum compromisso familiar, nenhuma festarola com amigos, nenhum evento desportivo, por mais empolgante que fosse, o aliciava quando ela solicitava a sua presença. Ouvia-a com atenção e paciência quando ela lhe contava as coisas lá dela, sorria com ternura quando lhe confiava os seus planos de uma fortaleza a dois. Nunca renegava as suas próprias fragilidades, nem se envergonhava de chorar no colo dela os obstáculos do seu caminho.

Não sabe precisar muito bem em que momento se começou a aperceber que “saber cada traço do seu rosto, do seu olhar” não era necessariamente bom. Talvez começasse a notar um bocadinho quando se tornou difícil pagar as contas do casulo, que apesar de exíguo e modesto, carecia de manutenção regular. Depois nasceram os meninos, dois preciosos caprichos do acaso, seguidinhos em dúzia e meia de meses. Nessa altura, não houve como não reparar que no casulo afinal talvez não coubessem tantos, talvez só coubesse mesmo ele, as fragilidades dele, as agruras lacrimosas dele. E em cada traço do seu rosto, do seu olhar, ela lia o enfado e o melindre por não poder já fruir em exclusividade do abraço dela, onde as suas lágrimas outrora encontravam sempre amparo e conforto.

E quando houve necessidade de arregaçar as mangas e providenciar, ele foi embora sem aviso, à procura de outro colo. Nessa altura já ela definitivamente o sabia de cor, mas não conseguia vislumbrar qualquer vantagem nisso.

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publicado às 19:30

Bocadinhos de esperança

por MC, em 05.01.16

(Publicidade da boa)

 

 

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publicado às 21:36

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Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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